Um corredor com 142 anos
A Ecopista entre a Avenida D. João IV e a Costa não é um espaço sobrante. É o canal da antiga linha férrea Guimarães–Fafe, aberto em 1907, encerrado em 1986, devolvido às pessoas em 1999 e 2018. Esta cronologia reúne, com fontes, tudo o que se sabe publicamente sobre o corredor e sobre a via que agora o ameaça.
- 1883–1884
O comboio chega a Guimarães
A Linha de Guimarães abre entre a Trofa e Vizela a 31 de Dezembro de 1883 e chega a Guimarães a 14 de Abril de 1884. Mais de dez mil pessoas assistem à viagem inaugural. A estação fica no topo do que é hoje a Avenida D. João IV.
- 1901–1907
Prolongamento a Fafe: nasce o corredor
D. Carlos autoriza a Companhia do Caminho de Ferro de Guimarães a construir o troço Guimarães–Fafe (22 Nov 1901). As obras começam em 1903 e o troço de cerca de 22 km abre a 21 de Julho de 1907. É este canal, que sai da estação para nascente pela encosta da Costa e Mesão Frio, que existe até hoje.
- 1986
Encerramento do troço Guimarães–Fafe
O serviço ferroviário entre Guimarães e Fafe é desactivado. O canal ferroviário fica sem uso durante mais de uma década, mas mantém-se intacto na posse do Estado.
- Junho 1999
Pista de Cicloturismo Guimarães–Fafe
A Câmara de Guimarães inaugura a ecopista sobre a antiga linha, no troço Devesa (Mesão Frio) até ao limite do concelho, com 8,3 km em Guimarães e cerca de 21 km até Fafe. Trânsito motorizado interdito em toda a extensão. É hoje uma das ecopistas da rede IP Património.
- 2002–2004
Modernização da linha Trofa–Guimarães
O troço ainda activo fecha a 23 de Fevereiro de 2002 e reabre a 19 de Janeiro de 2004, electrificado e em bitola ibérica, num investimento de 155 milhões de euros. O troço para Fafe fica definitivamente fora da rede ferroviária.
- 2015
Plano de Mobilidade Urbana Sustentável
O PMUS diagnostica uma cidade dependente do automóvel (62,9% das deslocações em transporte individual, 23% a pé, 0,13% em bicicleta) e fixa como objectivo aumentar a quota do transporte público e dos modos suaves. Recomenda uma rede ciclável contínua e coerente.
- 22 Set 2018
Inauguração da Ecovia de Guimarães
No Dia Mundial Sem Carros, a Câmara inaugura na rotunda da Avenida D. João IV a 1.ª fase da Ecovia Urbana: 16,5 km que ligam a ecopista de Mesão Frio ao Parque da Cidade e à Veiga de Creixomil, incluindo o troço da antiga linha entre a estação e a Costa. Custo de cerca de 2,8 milhões de euros, 2,3 milhões financiados pelo FEDER (Norte 2020).
- Abril 2023
Diagnóstico de mobilidade da revisão do PDM
Os estudos de caracterização registam que a taxa de motorização subiu de 55,3% para 73,0% entre 2011 e 2021, que o tráfego nas A7/A11 no concelho cresceu 32,6% (85.291 para 126.508 veículos/dia, 2012–2022) e que a bicicleta «ainda não constitui uma opção válida para os movimentos pendulares» por a rede ser «incipiente, descontínua e incoerente».
- 27 Nov 2024
Guimarães eleita Capital Verde Europeia 2026
Segunda cidade portuguesa a receber o título. O júri destaca o desempenho em qualidade do ar, ruído, biodiversidade e espaços verdes, e mitigação climática.
- 28–29 Abril 2025
A nova via aparece pela primeira vez
Em sessão extraordinária, a Câmara apresenta o BRT Guimarães–Braga e quatro ligações rodoviárias, entre elas a ligação da Avenida D. João IV a Urgezes. O vereador Joaquim Carvalho garante que uma nova via «ao lado da ecopista existente» não comprometeria «o usufruto desse canal exclusivo para mobilidade pedonal e ciclável». Nenhum estudo de tráfego é tornado público.
- Set 2025
PDM aprovado, contestado e revogado
O executivo de Domingos Bragança aprova a 1 de Setembro a 2.ª revisão do PDM com votos contra da oposição. Ricardo Araújo, então vereador, chama-lhe «manta de retalhos» e «sem visão de futuro». Após as eleições de Outubro, o novo executivo revoga a aprovação, reabre o processo e obtém da CCDR-N prazo até Junho de 2026.
- 11 Set 2026
Revisão do PDM: cinco novas vias, uma delas sobre a Ecopista
Ricardo Araújo e o vereador Constantino Veiga apresentam a nova revisão. Entre os cinco corredores está a ligação do topo da Avenida D. João IV à Costa e ao futuro Campus da Justiça, junto à Academia de Ginástica, sobre o corredor da Ecopista. «O PDM pode traçar e salvaguardar corredores», diz o presidente, «mas não executa uma estrada».
- 14 Set 2026
Câmara aprova por maioria
Votos a favor de Juntos por Guimarães e Chega, abstenção do PS. O documento segue para a Assembleia Municipal.
- 15 Set 2026
Nasce a petição e o movimento
Utilizadores da Ecovia lançam a petição pública «Não à construção de uma estrada sobre a Ecopista de Guimarães», dirigida ao Presidente da Câmara e à Assembleia Municipal. Em cinco dias ultrapassa as 400 assinaturas.
- 25 Set 2026
Assembleia Municipal vota o PDM
Sessão às 21h00. É a última oportunidade para os 111 membros da Assembleia retirarem o corredor sobre a Ecopista antes da publicação em Diário da República. Estaremos lá.
O que a história ensina
Guimarães demorou treze anos a transformar a linha morta em ecopista (1986–1999) e mais dezanove a trazê-la até ao centro da cidade (2018), com 2,3 milhões de euros de fundos europeus. Levou oito anos, e uma revisão do PDM, a decidir devolvê-la aos automóveis.
Nesse mesmo período a taxa de motorização subiu de 55% para 73% e o tráfego nas auto-estradas do concelho cresceu um terço. Não é a falta de estradas que explica o congestionamento. É a falta de alternativas. A Ecovia é uma delas.